Durante muitos anos eu enxerguei minhas faculdades inacabadas como fracassos pessoais.
Enquanto meus amigos do colégio já estavam formados, construindo carreira e seguindo uma trajetória aparentemente linear, eu acumulava cursos iniciados, mudanças de direção e aquela sensação silenciosa de estar ficando para trás.
E isso machucava.
Porque no fundo eu sabia que não era falta de inteligência.
Sempre aprendi rápido.
Sempre fui curioso.
Sempre gostei de entender como as coisas funcionavam.
O problema é que minha mente parecia funcionar movida por interesse, propósito e empolgação.
Quando algo despertava minha curiosidade, eu mergulhava de cabeça.
Mas quando aquilo perdia sentido emocional ou começava a virar apenas obrigação, a conexão desaparecia.
E junto com ela vinha a culpa.
Comecei vários cursos ao longo da vida.
Grande parte deles ligados à tecnologia.
Engenharia Elétrica.
Ciência da Computação.
Análise de Sistemas.
A tecnologia sempre me fascinou. Desde cedo eu gostava de computadores, sistemas, lógica, possibilidades e inovação. Minha mente parecia acordar quando entrava nesse universo.
Mas também existiu Direito.
E talvez muita gente ache estranho alguém sair da tecnologia para se interessar por Direito.
Mas existe um motivo.
Minha esposa sempre dizia que eu tinha facilidade para argumentar. Que eu me comunicava bem. Que conseguia defender ideias com clareza.
Quando entrei no curso de Direito, me apaixonei pela filosofia.
Aquilo mexia comigo.
As discussões.
Os pensamentos.
Os argumentos.
As reflexões.
Era como se minha mente encontrasse combustível naquele universo.
O começo de cada faculdade era empolgante.
Muito empolgante.
Existia hiperfoco.
Empolgação.
Energia.
Curiosidade.
Mas com o tempo as coisas começavam a mudar.
As matérias acumulavam.
As mensalidades apertavam.
O cansaço mental aparecia.
A dificuldade de manter constância começava a pesar.
E aos poucos eu ia perdendo a alegria.
Até deixar aquilo de lado.
Durante muito tempo me culpei por isso.
Me sentia uma decepção.
Porque enquanto algumas pessoas pareciam conseguir seguir um único caminho até o final, eu sentia que minha mente precisava constantemente de novidade, significado ou estímulo para continuar funcionando bem.
E existia outro problema silencioso:
o sono.
Na escola.
Na faculdade.
Nas aulas longas.
Era muito difícil permanecer acordado e focado o tempo inteiro.
Eu já me conhecia minimamente naquela época, então criava pequenas estratégias.
Sempre tentava sentar na frente, perto do professor.
Tentava não conversar muito.
Tentava me forçar a prestar atenção.
Mas mesmo assim muitas vezes acabava sendo apenas um aluno mediano.
E isso me incomodava profundamente.
Porque eu sabia que tinha potencial para mais.
Curiosamente, antes de seguir definitivamente na tecnologia, eu gostava muito de esportes também.
Talvez Educação Física tivesse sido um caminho natural para mim.
Mas na época, aos olhos dos meus pais, não era uma profissão tão valorizada financeiramente.
Então entre o que eu gostava e o que parecia mais rentável, escolhi a tecnologia.
E honestamente?
Não me arrependo.
Porque foi justamente trabalhando na área de tecnologia que surgiu uma das oportunidades mais importantes da minha vida.
Eu estava cursando Direito quando apareceu uma bolsa de estudos.
Mas existia uma condição:
a bolsa seria para Análise de Sistemas, área em que eu já trabalhava.
Então precisei tomar uma decisão difícil.
Larguei Direito.
E recomecei Análise de Sistemas.
Mas dessa vez algo era diferente.
A bolsa não representava apenas um curso.
Representava oportunidade.
Representava futuro.
Representava talvez minha chance real de finalmente concluir uma graduação.
Era pegar ou largar.
E aquilo ativou algo em mim.
Pela primeira vez consegui manter constância do início ao fim.
Não perdi nenhuma matéria.
Me tornei um excelente aluno.
Inclusive fui elogiado pela coordenação do curso pelo meu desempenho.
Hoje olhando para trás eu entendo muita coisa que antes parecia apenas fracasso.
Entendo que minha mente precisava de propósito para funcionar bem.
Precisava de significado.
Precisava sentir conexão emocional com aquilo que estava fazendo.
E talvez essa seja uma das características mais difíceis de explicar para quem nunca viveu isso.
Porque não era preguiça.
Não era incapacidade.
Era como se minha mente precisasse constantemente encontrar motivo para continuar.
Hoje também entendo que curiosidade excessiva pode cansar.
Porque pessoas curiosas vivem se apaixonando por possibilidades.
E possibilidades demais também confundem.
Talvez por isso eu tenha passado tantos anos me reinventando.
E sinceramente?
Ainda continuo.
Já trabalhei mais de 20 anos na área de tecnologia.
Dentro desse período fui:
professor,
suporte técnico,
infraestrutura,
desenvolvimento,
gestão de EAD.
A cada oportunidade nova eu mudava de área.
Mudava de desafio.
Mudava de cenário.
Até que durante a pandemia fui demitido junto com muitas outras pessoas.
E mais uma vez precisei me reinventar.
Entrei no mercado de energia solar.
Depois migrei para o mercado imobiliário.
Hoje atuo como corretor de imóveis, principalmente na área de tráfego e geração de leads.
Ao mesmo tempo trabalho como gestor de projetos em órgão público.
E continuo pensando em novas possibilidades.
Novos negócios.
Novos caminhos.
Porque talvez eu tenha entendido uma coisa importante sobre o mundo moderno:
quem tem dois empregos na verdade tem um.
Quem tem apenas um talvez não tenha nenhum.
Então continuo me reinventando.
Não por desespero.
Mas porque aprendi que adaptação também é inteligência.
E talvez o mais importante de tudo seja perceber que eu nunca estava apenas trocando de faculdade.
Eu estava tentando encontrar meu lugar no mundo.
Hoje não me vejo mais como alguém que fracassou por não concluir alguns cursos.
Vejo alguém que tentou.
Que buscou caminhos.
Que se adaptou.
Que caiu.
Que recomeçou.
E que continua evoluindo.
Se eu pudesse dizer algo para alguém que começou várias coisas e hoje se sente fracassado, diria algo simples:
Descubra quem você é.
Procure ajuda.
Entenda sua mente.
Se ajuste.
E continue correndo atrás.
Porque enquanto existir vontade de evoluir… sempre vai dar tempo.

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