Quando recebi meu diagnóstico de TDAH perto dos 50 anos, uma das primeiras emoções que senti foi tristeza.
Não tristeza pelo diagnóstico.
Mas tristeza pelo tempo.
Pelo atraso.
Pela sensação de ter vivido décadas sem entender completamente minha própria mente.
Durante muito tempo fiquei me perguntando:
“Como teria sido minha vida se eu tivesse descoberto isso antes?”
Talvez minhas notas no colégio fossem diferentes.
Talvez eu tivesse seguido outros caminhos profissionais.
Talvez eu tivesse sofrido menos tentando entender porque parecia tão difícil fazer coisas que para outras pessoas pareciam normais.
Mas talvez a parte mais difícil tenha sido perceber o quanto eu era intenso emocionalmente sem entender o motivo.
Tudo em mim parecia exagerado.
Ou eu sentia demais…
ou de repente não sentia mais nada.
Hora extremamente sensível ao mundo.
Hora frio emocionalmente.
Como se meus sentimentos também funcionassem em extremos.
E olhando para trás, talvez uma das coisas que mais me machuca seja lembrar da sensação constante de ser apenas “mediano”.
Porque hoje eu me sinto diferente.
Hoje eu me sinto alguém acima da média.
Não por arrogância.
Mas porque finalmente consigo acessar uma versão minha que antes parecia presa atrás do caos mental, do cansaço e da desorganização.
No início do diagnóstico eu tentei procurar culpados.
Acho que isso faz parte do processo.
Culpei meus pais.
Culpei a escola.
Culpei pessoas ao meu redor.
Mas com o tempo percebi algo importante:
ninguém tinha culpa.
Era outra época.
Quase ninguém falava sobre TDAH.
Meus pais fizeram o melhor que podiam com o conhecimento que tinham.
E sinceramente?
Eu também fiz.
Talvez esse tenha sido o momento em que meu luto começou a mudar de forma.
Porque existe uma diferença enorme entre lamentar o passado e compreender o passado.
Primeiro eu lamentei.
E acho importante dizer isso.
Eu vivi meu luto.
Senti tristeza.
Senti revolta.
Senti o peso dos “e se”.
E acredito que isso foi necessário.
Porque sentimentos ignorados não desaparecem.
Eles apenas ficam mal resolvidos dentro da gente.
Mas chegou um momento em que entendi que precisava encerrar esse ciclo.
Porque continuar chorando pelo passado seria apenas mais uma forma de perder tempo.
E sinceramente?
Eu não queria mais perder nada.
Existe uma frase que gosto muito:
“O seu passado pode ter manchas e erros. Mas seu futuro continua intacto, esperando para ser escrito.”
Essa frase mexe profundamente comigo.
Porque hoje eu olho para trás e percebo algo importante:
eu sobrevivi mesmo sem entender minha mente.
Usei criatividade.
Inteligência.
Improviso.
Adaptação.
Fiz o melhor que consegui com as ferramentas que tinha naquele momento.
E talvez uma das maiores pazes que o diagnóstico trouxe tenha sido justamente essa:
eu finalmente descobri quem é o verdadeiro Ari.
Saber quem você é é libertador.
Porque quando você entende sua mente, seus padrões, suas emoções e seus limites, começa a existir menos culpa e mais consciência.
Hoje sinto que minha identidade foi reorganizada.
Como se durante décadas eu tivesse vivido tentando entender um personagem confuso…
e finalmente tivesse conhecido a pessoa real por trás dele.
E sinceramente?
Tenho orgulho do homem que chegou até aqui.
Orgulho absoluto.
Porque cresci mesmo com dificuldades que ninguém via.
Sobrevivi.
Construí uma vida.
Trabalhei.
Criei família.
Me reinventei várias vezes.
E hoje já me perdoei por ter chegado até aqui da forma que foi possível chegar.
Fiz muito com as ferramentas que me foram dadas.
Mas existe uma diferença importante agora:
hoje eu sei quem sou.
E sabendo disso, sinto que não me restam mais desculpas.
Me resta apenas viver tudo aquilo que talvez sempre esteve dentro de mim esperando direção.
Eu realmente acredito que uma mente intensa, criativa e bem orientada pode alcançar lugares muito altos.
Durante muito tempo fui um puro sangue correndo sem direção.
Hoje sinto que finalmente estou aprendendo a usar minha força da forma certa.
Conversar com meus pais sobre tudo isso também foi um processo delicado.
No início eles achavam que talvez fosse apenas mais uma novidade minha.
Mas com o tempo, vendo minha evolução profissional, minha clareza mental e principalmente a evolução das minhas filhas depois do diagnóstico, acredito que passaram a compreender melhor.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas dessa história:
o diagnóstico não mudou apenas minha vida.
Mudou a vida das minhas filhas também.
Hoje vejo nelas oportunidades que eu não tive.
E isso me traz paz.
Se eu pudesse resumir o que o diagnóstico me trouxe, diria uma palavra:
libertação.
Porque informação abre seus olhos.
Expande horizontes.
Aumenta possibilidades.
E quando você entende sua mente, para de lutar contra ela e começa finalmente a jogar ao lado dela.
Hoje sinto que existe muito futuro pela frente.
É como se tivesse existido uma vida antes…
e agora uma nova vida começasse.
Uma vida mais consciente.
Mais clara.
Mais madura.
Mais verdadeira.
E se eu pudesse dizer algo para alguém que acabou de descobrir o TDAH depois dos 40 anos, diria:
Aproveite essa oportunidade.
Estude muito.
Pesquise.
Leia tudo o que puder.
Porque quanto mais você entende o TDAH, mais aprende a usar sua mente ao seu favor.
Durante muito tempo talvez você tenha escutado que não era bom o suficiente.
Mas talvez apenas estivesse vivendo sem entender quem realmente era.
Às vezes o diagnóstico tardio lembra um pouco a história do patinho feio.
Você passa anos acreditando que nasceu errado…
até perceber que apenas estava no ambiente errado sem conhecer sua própria natureza.
Então aproveite.
Porque a vida agora pode ser outra.
E sinceramente?
Nós não viemos a esse mundo apenas para sobreviver.
Viemos para viver intensamente tudo aquilo que somos capazes de nos tornar.

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