Eu passei praticamente a vida inteira acreditando que minha mente funcionava como a de todo mundo.
Achava normal pensar sem parar.
Achava normal viver cansado mentalmente.
Achava normal deitar para dormir e continuar criando diálogos, cenários, projetos, argumentos, preocupações e possibilidades infinitas dentro da cabeça.
Hoje eu entendo que não era normal.
Era apenas o único jeito que eu conhecia de existir.
Antes da medicação, minha mente parecia uma antena de rádio captando todas as estações ao mesmo tempo.
Enquanto eu trabalhava, pensamentos surgiam em várias direções.
Se eu tivesse uma ideia nova, minha cabeça já construía um projeto inteiro em segundos. Estratégias, possibilidades, problemas, soluções, cenários… tudo acontecendo ao mesmo tempo.
Se eu estivesse chateado com alguém, minha mente criava automaticamente dezenas de argumentos para possíveis discussões que talvez nunca acontecessem.
Antes de reuniões, eu simulava mentalmente possibilidades.
“Se ele falar isso, eu respondo aquilo.”
“Se o assunto for para esse lado, posso argumentar assim.”
“Se surgir esse problema, talvez exista essa solução.”
Era como viver constantemente em estado de antecipação mental.
E o mais curioso é que, por muito tempo, achei que isso fosse uma característica comum em todas as pessoas.
Talvez porque sempre vivi assim.
Da mesma forma que vivi anos sem perceber que enxergava mal.
Lembro de uma situação da adolescência.
Eu devia ter uns 15 anos quando falei para meu pai que achava que não enxergava direito. Ele não deu muita importância. Achou que talvez fosse apenas mais uma impressão minha. E eu também deixei aquilo para lá.
Até o dia em que fui ao médico por outro motivo e, durante a consulta, ele perguntou:
“Você usa óculos?”
Respondi que não.
Ele então disse:
“Vai usar agora. E provavelmente para o resto da vida.”
Eu tinha quase dois graus em um olho e um grau e meio no outro.
E aquilo me marcou profundamente depois de adulto.
Porque percebi que passei anos enxergando o mundo de forma limitada sem saber.
Com minha mente aconteceu exatamente a mesma coisa.
Eu achava que todos viviam cansados daquele jeito.
Achava que todos tinham pensamentos incontroláveis.
Achava que todos carregavam aquele barulho constante dentro da cabeça.
Mas não.
Minha mente nunca descansava.
O pior momento normalmente era quando eu ficava sozinho.
No banho.
Dirigindo.
Tentando dormir.
Minha cabeça começava a criar cenários infinitos.
Eu revivia situações antigas.
Criava projetos.
Simulava conversas.
Pensava no futuro.
Tentava resolver problemas mentalmente.
Tudo ao mesmo tempo.
Até hoje, quando o efeito da medicação acaba, isso volta.
E quando existe muito sentimento envolvido, seja algo bom ou ruim, o barulho mental aumenta ainda mais.
É difícil explicar para quem nunca viveu isso.
Porque não existe um botão de desligar.
Você apenas continua pensando.
Pensando.
Pensando.
Mesmo cansado.
Mesmo querendo descansar.
Dormir sempre foi um desafio silencioso para mim.
Porque meu corpo deitava, mas minha mente continuava acordada.
Muitas vezes eu rezava.
Pedia a Deus e a Nossa Senhora para me deixarem descansar. Como se eu estivesse pedindo para deitar no colo deles por alguns minutos e finalmente desligar minha mente.
Hoje percebo o quanto eu estava cansado sem entender exatamente o motivo.
Eu só sabia que algo dentro de mim parecia funcionar diferente.
Então veio o diagnóstico.
Depois vieram os primeiros dias da medicação.
Lembro exatamente daquele dia.
Cheguei ao trabalho.
Arrumei minha mesa.
Liguei o computador.
Comecei minhas atividades normalmente.
E fiquei ansioso esperando algum efeito milagroso acontecer.
Mas aparentemente nada tinha mudado.
Até que cerca de uma hora depois fui ao banheiro.
Existia um corredor longo entre minha sala e o banheiro.
E foi naquele corredor que algo extremamente estranho aconteceu.
Minha mente ficou em silêncio.
Silêncio absoluto.
Nenhum pensamento.
Nenhuma lembrança.
Nenhum planejamento.
Nenhuma preocupação.
Nenhum diálogo interno.
Nada.
E aquilo foi tão estranho que eu praticamente percebi o silêncio acontecendo.
Eu estava apenas caminhando.
Sem resolver problemas.
Sem criar possibilidades.
Sem construir cenários.
Sem pensar em nada.
Foi uma sensação quase inacreditável.
Talvez uma das experiências mais estranhas da minha vida.
Na hora entendi:
“O remédio fez efeito.”
Mas o mais impactante não foi a medicação.
Foi descobrir que existia uma forma diferente de viver dentro da própria mente.
Na adolescência eu havia lido uma revista qualquer que ensinava técnicas de meditação.
A matéria dizia algo como:
“Imagine apenas uma flor.”
Só isso.
E eu nunca consegui.
Enquanto tentava imaginar a flor, minha cabeça já tinha criado mil outros pensamentos.
Então aquele silêncio no corredor parecia algo impossível.
Depois vieram as mudanças nas reuniões.
E talvez só quem vive isso consiga entender a diferença.
Antes, eu entrava numa reunião tentando prestar atenção.
Mas de repente percebia um crucifixo na parede.
E começava a observar os detalhes da peça.
Depois pensava quem teria colocado aquilo ali.
Depois lembrava outra situação.
Depois minha mente já estava em outro assunto completamente diferente.
Enquanto as pessoas continuavam falando.
Hoje é diferente.
Hoje eu sento na reunião e estou absolutamente presente nela.
Eu escuto.
Analiso.
Pondero.
Argumento.
Participo.
E talvez uma das coisas mais marcantes:
não sinto mais aquele sono absurdo.
Durante muitos anos o sono me perseguiu.
Principalmente depois do almoço.
Eu precisava levantar, lavar o rosto, tomar café, caminhar…
Até para viajar eu tomava energético com medo de dormir dirigindo, inclusive em viagens curtas.
Hoje isso simplesmente desapareceu.
E olhando para trás, o que mais me impressiona é perceber quantas “gambiarras emocionais” eu precisei criar para parecer normal.
Quantas adaptações invisíveis.
Quantas estratégias silenciosas.
Quantas compensações.
Hoje, para mim, silêncio mental não significa vazio.
Significa descanso.
Significa colocar a mente em ponto morto por alguns instantes.
Como um carro funcionando sem precisar acelerar o tempo inteiro.
E existe uma diferença enorme entre silêncio mental e vazio emocional.
O silêncio mental traz paz.
O vazio emocional é outra batalha.
Essa eu ainda aprendo a controlar observando meus sentimentos, entendendo meus padrões e tentando amadurecer emocionalmente.
Mas uma coisa mudou completamente:
Hoje eu consigo estar presente.
Absolutamente presente.
Minha oratória melhorou.
As palavras não fogem mais da minha cabeça como antes.
As reuniões deixaram de ser uma guerra mental.
E talvez o mais curioso de tudo seja perceber que minha criatividade continua aqui.
Porque muita gente acha que tratar o TDAH apaga personalidade.
No meu caso, não.
Apenas organizou o caos.
Hoje eu entendo algo que talvez tenha levado décadas para descobrir:
Eu não era preguiçoso.
Eu não era desinteressado.
Eu não era fraco. Minha mente apenas nunca tinha aprendido a descansar.

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