Era como tentar ouvir todas as estações ao mesmo tempo.

Durante muitos anos achei que minha mente funcionava exatamente como a de todo mundo.

Achava normal:

  • pensar sem parar,
  • criar diálogos internos,
  • imaginar possibilidades,
  • antecipar problemas,
  • lembrar situações antigas,
  • construir cenários futuros,
  • analisar tudo ao mesmo tempo.

Hoje percebo que minha cabeça parecia muito mais uma antena de rádio desregulada captando várias frequências simultaneamente.

E sinceramente?
Isso cansa mais do que as pessoas imaginam.


Nunca existia silêncio

Mesmo quando eu estava parado…
minha mente continuava trabalhando.

No banho.

Dirigindo.

Tentando dormir.

Andando.

Em reuniões.

Assistindo algo.

Sempre existia algum pensamento acontecendo.

Ou melhor:
muitos pensamentos acontecendo ao mesmo tempo.

Era como se uma estação mental nunca desligasse completamente.


Um pensamento puxava outro

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar para quem nunca viveu isso.

Minha mente raramente seguia uma linha reta.

Um único pensamento puxava vários outros.

Por exemplo:

Eu podia estar em uma reunião ouvindo alguém falar sobre um projeto…
e de repente meu cérebro conectava:

  • uma lembrança antiga,
  • uma ideia nova,
  • uma solução,
  • um medo,
  • uma preocupação,
  • uma associação aleatória.

Tudo em segundos.

E quando percebia…
já estava mentalmente longe daquela conversa.


Minha cabeça criava projetos inteiros sozinha

Se eu tivesse uma ideia nova…
pronto.

Minha mente já começava automaticamente a montar:

  • estratégias,
  • possibilidades,
  • cenários,
  • problemas,
  • soluções,
  • riscos,
  • argumentos.

Era como se existisse um departamento inteiro funcionando dentro da minha cabeça 24 horas por dia.

Às vezes isso ajudava muito.

Outras vezes me esgotava completamente.


O excesso de pensamento também produz ansiedade

Porque pensar demais não significa necessariamente pensar melhor.

Muitas vezes significa:

  • cansar mais rápido,
  • sofrer antecipadamente,
  • criar problemas que ainda nem existem,
  • viver em estado constante de alerta.

E talvez essa tenha sido uma das partes mais desgastantes da minha vida mental.

Minha cabeça raramente descansava.


Eu ensaiava situações antes delas acontecerem

Antes de reuniões, conversas importantes ou qualquer situação relevante, minha mente criava possibilidades infinitas.

“Se ele falar isso, eu respondo aquilo.”

“Se acontecer isso, faço aquilo.”

“E se der errado?”

“E se perguntarem aquilo?”

Era como viver constantemente preparado para cenários que muitas vezes nunca aconteceriam.

Hoje percebo o quanto isso consumia energia emocional sem necessidade.


O barulho aumentava quando existia emoção

Uma coisa que também comecei a perceber:
quanto mais emoção envolvida em algo…
mais alto o “volume mental” ficava.

Se eu estivesse:

  • preocupado,
  • ansioso,
  • feliz,
  • apaixonado,
  • irritado,
  • frustrado,

o excesso de pensamentos aumentava absurdamente.

E o mais curioso:
eu já estava tão acostumado com isso…
que achava normal.


Até dormir virava trabalho mental

Talvez o momento mais difícil fosse a hora de dormir.

Porque meu corpo deitava…
mas minha mente continuava funcionando.

Criando cenários.

Lembrando conversas.

Pensando no futuro.

Planejando coisas.

Resolvendo problemas imaginários.

E isso é extremamente cansativo.

Hoje percebo que muitas vezes eu não descansava mentalmente nem enquanto dormia.


O silêncio mental parecia impossível

Lembro que quando era adolescente li uma revista sobre meditação.

A matéria dizia algo simples:

“Imagine apenas uma flor.”

E sinceramente?
Eu não consegui.

Enquanto tentava imaginar a flor, minha cabeça já tinha criado:

  • lembranças,
  • pensamentos,
  • associações,
  • diálogos,
  • ideias.

Na época achei apenas curioso.

Hoje entendo que talvez minha mente já mostrasse sinais claros de hiperatividade mental.


O dia em que minha mente desacelerou

Depois do diagnóstico e da medicação, vivi algo que nunca vou esquecer.

Pela primeira vez experimentei silêncio mental.

E aquilo foi quase assustador.

Lembro de estar caminhando no corredor do trabalho…
e perceber que não existia nenhum pensamento acontecendo naquele momento.

Nenhum.

Aquilo parecia impossível.

Foi quando percebi:

minha mente passou décadas funcionando acelerada sem que eu soubesse.


O problema não era pensar demais

O problema era nunca conseguir parar

Hoje entendo algo importante.

Minha criatividade veio muito dessa mente intensa.

Minha capacidade de:

  • analisar,
  • conectar ideias,
  • criar soluções,
  • observar pessoas,
  • enxergar possibilidades,

também nasceu dessa velocidade mental.

Então não vejo minha mente como inimiga.

O problema nunca foi intensidade.

O problema era a ausência de pausa.


A mente moderna vive acelerada demais

E sinceramente?
Acredito que hoje muita gente vive assim sem perceber.

Celular.

Notificações.

Vídeos curtos.

Excesso de informação.

Múltiplas telas.

Tudo isso faz nosso cérebro permanecer em estado constante de ativação.

Talvez por isso tantas pessoas sintam:

  • ansiedade,
  • exaustão,
  • dificuldade de foco,
  • irritação,
  • sensação de cansaço mental.

Hoje tento ensinar minha mente a descansar

Ainda sou intenso.

Ainda penso rápido.

Ainda tenho excesso de ideias.

Mas hoje existe consciência.

Hoje entendo que minha mente também precisa:

  • de silêncio,
  • de organização,
  • de pausas,
  • de descanso,
  • de desaceleração.

Porque até uma antena poderosa precisa parar de captar sinal em algum momento.

Senão o barulho interno acaba consumindo toda a energia da própria vida.


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