Antes do diagnóstico de TDAH, minha vida profissional era marcada por uma sensação constante de insegurança.
Eu sobrevivia.
Essa talvez seja a melhor palavra.
Mesmo trabalhando há anos, mesmo recebendo elogios, mesmo mudando de áreas e aprendendo coisas novas, existia dentro de mim uma sensação silenciosa de que algo estava errado.
Minha mente vivia cansada.
E junto com o cansaço vinha uma falta de esperança profissional difícil de explicar.
Era como se eu soubesse que tinha potencial…
mas não conseguisse acessar completamente aquilo que existia dentro de mim.
Durante muito tempo trabalhei gastando energia demais apenas para acompanhar o básico.
Eu anotava tudo.
Absolutamente tudo.
Porque tinha dificuldade em gravar informações.
Minha teoria pessoal era que eu aprendia “por osmose”, pela repetição constante.
Precisava ouvir várias vezes.
Ver várias vezes.
Repetir várias vezes.
Enquanto isso, o sono e as distrações me perseguiam diariamente.
E talvez essa tenha sido uma das partes mais difíceis da minha vida profissional.
Porque por fora as pessoas enxergavam alguém comunicativo, inteligente e criativo.
Mas por dentro eu me sentia um impostor.
Muitas pessoas diziam:
“Você é muito inteligente.”
“Você tem muitas habilidades.”
“Você se destaca.”
Mas eu nunca conseguia acreditar completamente nisso.
Parecia que existia alguma peça faltando dentro de mim.
Minha maior dificuldade no trabalho era o conjunto:
sono,
falta de foco,
procrastinação
e distrações constantes.
Principalmente nas reuniões.
Eu entrava tentando prestar atenção, mas minha mente fugia.
O sono vinha forte.
As distrações apareciam.
E manter presença mental exigia um esforço gigantesco.
Hoje percebo o quanto isso me desgastava silenciosamente.
Mas então veio o diagnóstico.
E depois dele veio algo que mudou completamente minha vida profissional.
Presença.
Pela primeira vez meus ouvidos pareciam realmente absorver cada palavra das reuniões.
Eu escutava.
Processava.
Analisava.
Respondia.
Participava.
Sem aquele barulho constante me puxando para outras direções.
Meus olhos não queriam mais fechar de sono.
Minha mente não queria mais fugir da conversa.
Eu finalmente estava presente.
E talvez tenha sido aí que algo despertou dentro de mim:
a vontade de performar.
Não apenas sobreviver profissionalmente.
Performar.
Produzir.
Crescer.
Contribuir.
E o mais interessante é que isso mudou completamente minha relação com o trabalho em equipe.
Existe uma frase muito usada em currículos:
“Meu objetivo é somar à equipe.”
Durante muitos anos isso parecia apenas uma frase bonita.
Hoje virou propósito real.
Hoje eu realmente sinto prazer em contribuir.
Em resolver problemas.
Em ajudar projetos.
Em agregar valor.
E talvez uma das coisas mais emocionantes dessa transformação seja escutar meu nome sendo citado positivamente em reuniões, projetos e equipes.
Ouvir pessoas dizendo que fui fundamental em determinadas entregas.
Ouvir superiores dizendo que faço diferença.
Isso mexe comigo profundamente.
Porque durante muito tempo eu não conseguia enxergar em mim o profissional que os outros enxergavam.
Minha oratória também mudou muito.
Antes eu pensava e falava ao mesmo tempo.
Às vezes as palavras fugiam.
As ideias embolavam.
Hoje é diferente.
Hoje eu escuto.
Penso.
Organizo.
E falo com velocidade, clareza e segurança.
As palavras não desaparecem mais no meio do raciocínio.
Minha criatividade também mudou.
Ou melhor:
ela ficou organizada.
As ideias continuam vindo.
Continuam rápidas.
Continuam intensas.
Mas agora existe direção.
Hoje ainda faço algumas das melhores apresentações do setor onde trabalho.
Mas a diferença é que agora consigo estruturar melhor aquilo que antes existia apenas como excesso mental.
E talvez uma das maiores mudanças tenha sido minha autoestima profissional.
Hoje me sinto preparado para crescer.
Absolutamente preparado.
Durante muitos anos eu escutava elogios sobre mim mesmo sem conseguir acreditar neles.
Hoje eu acredito.
Hoje eu sei do meu potencial.
E não falo isso com arrogância.
Falo com consciência.
Porque existe uma diferença enorme entre ego e clareza.
Hoje sei que faço muito bem aquilo que me proponho a fazer.
Podem até fazer parecido comigo.
Mas ninguém consegue ser melhor sendo eu.
E talvez essa seja uma das maiores libertações da maturidade:
parar de tentar ser outra pessoa.
Também comecei a perceber algo importante dentro do ambiente profissional:
muita gente inteligente sofre sem saber que pode ter TDAH.
Hoje, quando observo alguns colegas e percebo certos padrões, muitas vezes procuro conversar, orientar e incentivar que procurem ajuda.
E a maioria agradece muito depois.
Porque descobrir quem você é muda completamente a forma como você se enxerga no mundo profissional.
O diagnóstico mudou minha visão sobre sucesso.
Antes eu me sentia um impostor tentando acompanhar os outros.
Hoje sinto que finalmente entrei no jogo consciente da minha própria força.
E talvez a maior diferença entre o Ari profissional de antes e o de agora seja simples:
antes eu sobrevivia.
Hoje eu sei exatamente do que sou capaz.

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