Durante muito tempo eu não percebi que criava adaptações para conseguir funcionar melhor.

Para mim aquilo era apenas a vida.

Acho que quando você cresce sem entender exatamente como sua mente funciona, entra automaticamente em modo sobrevivência. E o ser humano faz o que sempre fez desde o início da existência:

se adapta.

No meu caso, criatividade virou ferramenta de adaptação.

Sem perceber, fui criando pequenas “gambiarras mentais” para compensar dificuldades que eu nem sabia explicar direito.

E curiosamente, muitas delas funcionavam.

Uma das mais clássicas era criar sistemas para não esquecer coisas simples.

Por exemplo: quando precisava comprar algo na feira ou no mercado, eu não decorava exatamente os itens. Eu decorava quantos itens eram.

Então minha mente funcionava assim:

“Preciso comprar cinco coisas.”

Aí eu lembrava:
pão, ovos, leite, queijo…

E imediatamente vinha o alerta mental:

“Está faltando uma para completar cinco.”

Era uma forma improvisada de meu cérebro criar controle no meio do caos.

Outra gambiarra clássica era deixar tudo sempre no mesmo lugar.

Sempre.

A chave.

A carteira.

O celular.

O carro.

Inclusive eu quase sempre estacionava o carro exatamente na mesma vaga ou na mesma região do estacionamento.

Porque quando isso mudava, o caos começava.

Teve dias em que passei alguns minutos genuinamente acreditando que tinham roubado meu carro.

E não.
Ele apenas estava em outro lugar.

Pode parecer engraçado hoje.

Mas na época existia vergonha.

Porque esquecer coisas, perder objetos ou parecer distraído passa uma imagem ruim. Parece desleixo. Parece desinteresse. E eu nunca quis que as pessoas me enxergassem assim.

Então fui criando maneiras silenciosas de compensar minhas dificuldades.

E talvez o mais curioso seja que ninguém percebia.

Ninguém via o esforço invisível que existia por trás das pequenas tarefas normais do dia a dia.

Socialmente eu também criava adaptações.

Sempre fui muito observador.

Tenho uma característica forte de analisar pessoas, comportamentos e ambientes. Não exatamente como sobrevivência, mas porque entender como cada pessoa funciona ajuda muito nos relacionamentos.

Eu sempre acreditei que uma habilidade importante da vida é aprender a tratar as pessoas da forma como elas gostam de ser tratadas.

Então comecei a observar muito.

O jeito de falar.

O jeito de reagir.

O jeito de ouvir.

O jeito de brincar.

O que aproximava.

O que afastava.

E talvez por isso o humor tenha se tornado uma ferramenta tão importante para mim.

Não aquele humor agressivo.

Mas um humor leve, inteligente e delicado.

O humor conecta pessoas.

Ele suaviza ambientes.

Abre portas.

Evita que outras se fechem.

E talvez sem perceber eu tenha usado isso durante anos para equilibrar desconfortos internos que ninguém via.

Mas existiam dificuldades silenciosas que me machucavam muito.

Uma das piores era esquecer nomes e rostos.

Eu encontrava alguém e imediatamente vinha aquela sensação horrível:

“Eu conheço essa pessoa… mas de onde?”

Enquanto a pessoa provavelmente lembrava perfeitamente de mim.

Aquilo me incomodava profundamente.

Porque eu nunca quis parecer alguém desatento ou indiferente.

Outra batalha silenciosa era o sono.

E talvez essa tenha sido a gambiarra mais cansativa emocionalmente.

Principalmente nas reuniões.

Eu sentia muito sono.

Um sono quase incontrolável.

Então fui criando estratégias.

Café.

Muito café.

Energético.

Caminhar.

Lavar o rosto.

Respirar fundo.

Me movimentar discretamente.

E desenvolvi até técnicas para bocejar sem ninguém perceber.

Hoje parece engraçado contar isso.

Mas naquela época era pura tentativa de adaptação.

Eu tinha vergonha de parecer cansado ou desinteressado.

Até para viajar eu criava mecanismos.

Muitas vezes tomava energético antes de dirigir, inclusive em viagens curtas, porque tinha medo de dormir ao volante.

E o mais curioso era perceber que às vezes bastavam cinco minutos de sono para eu voltar completamente diferente.

Como se meu cérebro precisasse apenas reiniciar.

Um verdadeiro reboot mental.

O caos diminuía.

A mente reorganizava.

E eu conseguia continuar.

No trabalho e nos estudos, improviso e criatividade muitas vezes salvaram minha vida.

Quando minha mente não conseguia acompanhar métodos tradicionais, eu criava caminhos alternativos.

Talvez seja por isso que pessoas neurodivergentes muitas vezes desenvolvem formas muito diferentes de resolver problemas.

A necessidade obriga a adaptação.

Mas olhando para trás hoje, percebo algo importante:

Minhas gambiarras não me transformaram em alguém melhor.

Elas apenas me ajudaram a normalizar minha vida.

E sinceramente?

Tudo bem.

Porque problemas exigem soluções.

E durante muitos anos eu apenas tentei resolver da melhor forma possível aquilo que nem sabia explicar.

Hoje algumas dessas adaptações ainda continuam.

As listas, por exemplo.

Guardar objetos sempre no mesmo lugar também.

Mas outras desapareceram completamente.

Não preciso mais tomar Monster para conseguir dirigir sem medo de dormir.

Não preciso mais esconder bocejos em reuniões.

E talvez a maior mudança tenha sido perceber que eu passei anos tentando acompanhar o ritmo do mundo sem entender exatamente por que aquilo parecia tão difícil para mim.

Hoje eu entendo.

E isso muda tudo.

Porque quando você descobre quem é, para de gastar energia tentando lutar contra sua própria mente.

Você começa a trabalhar junto com ela.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes que aprendi depois do diagnóstico:

Procurar ajuda não é fraqueza.

Entender sua mente não é desculpa.

Usar a ciência para melhorar sua qualidade de vida não deveria ser motivo de vergonha.

Muito pelo contrário.

Talvez existam milhares de pessoas cansadas nesse momento achando que são preguiçosas, desorganizadas ou incapazes… quando na verdade apenas passaram a vida inteira criando pequenas gambiarras emocionais para sobreviver mentalmente.


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