Receber o diagnóstico de TDAH perto dos 50 anos foi uma das experiências mais estranhas e transformadoras da minha vida.
Estranha porque, no fundo, eu já suspeitava há muitos anos. Talvez desde os meus 30. Mas suspeita não muda a vida de ninguém. Suspeita é apenas aquele pensamento silencioso de “acho que tenho isso”. E viver no “acho” durante décadas é cansativo.
A verdade é que eu sempre me senti diferente das outras pessoas.
Não melhor. Não pior. Apenas diferente.
Enquanto alguns conseguiam seguir a vida de maneira linear, organizada e previsível, eu vivia tentando entender por que tudo parecia exigir de mim um esforço muito maior. Existia uma sensação constante de frustração, como se eu estivesse sempre atrasado em relação ao mundo. Como se todos tivessem recebido um manual invisível da vida e eu não.
Na escola eu era o típico aluno mediano. Não porque fosse incapaz. Hoje entendo isso claramente. O problema é que eu não conseguia enxergar sentido em muitos assuntos. Talvez se alguém tivesse ressignificado aquilo para mim, mostrado aplicação prática ou despertado minha curiosidade, a história teria sido diferente.
Porque quando algo realmente me interessava, eu mergulhava de cabeça.
Lembro perfeitamente da chegada dos computadores. Enquanto muita gente ainda tentava entender aquela novidade, eu passava horas lendo manuais, aprendendo sozinho, explorando possibilidades. Minha mente funcionava muito bem quando existia curiosidade, desafio ou novidade.
Mas o que era imposto… parecia impossível manter atenção.
O sono também era um capítulo à parte.
Era insuportável.
No colégio, na faculdade e até em reuniões profissionais depois de adulto, o sono chegava como uma avalanche. Muitas vezes eu lutava fisicamente para permanecer acordado. Desenvolvi até técnicas para bocejar sem ninguém perceber, porque sentia vergonha de parecer desinteressado ou preguiçoso.
Enquanto isso, eu observava minha irmã estudando.
Ela conseguia ler, decorar, revisar e manter foco de uma forma que parecia sobrenatural para mim. E eu me perguntava em silêncio:
“Como ela consegue?”
Hoje entendo que eu não era preguiçoso.
Meu cérebro apenas funcionava diferente.
Ao longo da vida comecei quatro faculdades. Direito foi uma delas. E a única que consegui concluir foi Análise de Sistemas. Curiosamente, talvez porque eu tivesse uma bolsa de estudos e o medo de perder aquela oportunidade funcionasse como combustível. A pressão me empurrava.
O tempo foi passando até o dia em que levei minha filha mais nova, de 13 anos, a uma consulta médica.
Aproveitei o momento e comecei a contar sobre mim também.
Expliquei minhas distrações, minha mente acelerada, minha dificuldade de foco, minhas oscilações de energia, meu sono constante e aquela sensação de viver sempre tentando compensar alguma coisa.
A médica me interrompeu rapidamente:
“Você nem precisa fazer teste. Você é.”
Mas depois de viver décadas no campo do “acho”, eu precisava de algo concreto. Precisava de verdade. Não queria mais viver em cima de suspeitas ou diagnósticos superficiais.
Então comecei a bateria de testes.
Foram dois meses.
E confesso: foi frustrante.
Na minha cabeça seria apenas responder algumas perguntas e pronto. Mas não. Foram avaliações longas, exercícios, entrevistas, análises… um verdadeiro mergulho na minha mente.
E eu fui até o fim.
Quando recebi o resultado, veio junto uma mistura de emoções difíceis de explicar.
O diagnóstico confirmou o TDAH.
Mas também mostrou algo curioso: inteligência acima da média e memória operacional extremamente prejudicada.
Na hora eu pensei:
“Sou praticamente um computador com um processador potente e um HD todo desorganizado.”
E honestamente? Fazia sentido.
Durante muitos anos minha mente parecia um motor extremamente forte, mas sem direção. Pensamentos demais. Ideias demais. Energia demais. Tudo ao mesmo tempo.
Em alguns momentos senti revolta.
Pensei nos meus pais.
Pensei em como ninguém percebeu antes.
Mas isso passou rápido.
Meus pais não tinham culpa. Na época, quase ninguém falava sobre isso. Eles fizeram o melhor que podiam com o conhecimento que tinham.
Então percebi que ficar preso ao passado não mudaria minha vida.
O que passou, passou.
A pergunta agora era:
“O que eu ainda posso construir daqui para frente?”
E foi aí que minha vida começou a mudar.
A primeira experiência marcante após a medicação aconteceu de forma simples.
Eu estava indo ao banheiro no trabalho.
E, pela primeira vez na vida, caminhei pelo corredor sem pensar em nada.
Silêncio.
Silêncio absoluto dentro da minha cabeça.
Quem não vive isso talvez ache estranho. Mas para alguém que passou décadas com pensamentos acelerados, links mentais infinitos e uma mente funcionando sem parar, aquilo parecia quase surreal.
Depois vieram as reuniões.
E pela primeira vez eu conseguia permanecer absolutamente presente nelas.
Sem viajar mentalmente.
Sem me perder nos estímulos ao redor.
Sem lutar contra o sono.
Foi como finalmente entrar no jogo.
Às vezes brinco que a medicação parece o filme “Sem Limites”.
Mas a verdade é que ela não cria uma nova pessoa.
Ela apenas organiza alguém que sempre existiu ali dentro.
Hoje entendo o TDAH quase como um cavalo puro-sangue.
Existe potência.
Existe velocidade.
Existe intensidade.
Mas sem direção, aquilo vira confusão, desgaste e desorganização.
Quando ajustado, treinado e compreendido, o mesmo cérebro que causava caos começa a produzir performance.
E talvez uma das partes mais emocionantes dessa jornada tenha sido olhar para minhas filhas.
Minha filha mais velha, que faz medicina, também recebeu diagnóstico de TDAH.
Minha filha mais nova recebeu diagnóstico de TDA.
E em vez de enxergar isso com tristeza, comecei a enxergar com esperança.
Porque elas estão tendo acesso cedo ao que eu só descobri perto dos 50 anos.
Hoje vejo resultados incríveis.
Notas 8, 9 e 10.
Orgulho.
Confiança.
Minha filha mais velha chegou a me mandar uma mensagem dizendo que, pela primeira vez, conseguiu concluir uma prova longa dentro do tempo correto sem perder foco relendo várias vezes as questões.
Talvez quem está de fora veja apenas notas melhores.
Mas eu vejo algo muito maior.
Eu vejo autoestima sendo reconstruída.
Existe sim um luto pela vida que poderia ter sido vivida.
E acho importante viver esse luto corretamente.
Conversar.
Sentir.
Entender.
Aceitar.
Eu vivi isso.
Mas também entendi que não posso transformar minha história em prisão emocional.
Porque ainda existe muita vida pela frente.
Hoje eu vivo uma das melhores fases da minha vida.
Não porque tudo ficou perfeito.
Mas porque finalmente sei quem sou.
Entender minha mente me trouxe clareza.
Me trouxe orgulho.
Me trouxe segurança.
Hoje consigo cair e levantar com mais facilidade porque entendo meus padrões, meus sentimentos, minhas reações e meus limites.
Eu não tenho pena de mim.
Tenho orgulho da minha trajetória.
Talvez eu nunca descubra exatamente qual vida teria vivido se tivesse entendido minha mente antes.
Mas uma coisa eu sei:
Ainda existe muito futuro pela frente.
E agora, pela primeira vez, sinto que estou vivendo ele consciente de quem realmente sou.

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